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Cia Ser Diferente transforma palco em espaço de inclusão

  • 26 de mai.
  • 6 min de leitura

ENTREVISTA – A diretora Cecília Marcondes fala sobre o espetáculo que reuniu libras, audiodescrição e elementos culturais para incentivar reflexões sobre acessibilidade

 

 

A inclusão na arte e nos espaços culturais tem ganhado cada vez mais destaque no Brasil. Em novembro de 2024, um levantamento realizado pelo Ministério da Cultura em parceria com a Universidade Federal da Bahia mapeou quase 3.500 artistas e agentes culturais com deficiência em todo o país, reforçando a necessidade de ampliar políticas públicas, acessibilidade e representatividade no setor. Além disso, o Ministério da Cultura lançou recentemente um Guia Prático de Acessibilidade Cultural para incentivar ações inclusivas em eventos e produções artísticas.

 

Em Limeira, essa discussão ganhou espaço no palco do Teatro Vitória no dia 23 de maio, durante o espetáculo Um Sorriso para o Mundo Não Acabar, da Cia Inclusiva de Teatro Ser Diferente. A apresentação gratuita contou com duas sessões acessíveis — uma com audiodescrição e outra com interpretação em Libras, reunindo público, artistas e familiares em uma experiência marcada pela diversidade, emoção e conscientização social.

 

Com elementos de musical, poesia, humor e folclore brasileiro, a peça acompanhou a jornada de Maria da Luz e personagens folclóricos em defesa da natureza e da preservação ambiental. Mais do que uma apresentação artística, o espetáculo buscou promover reflexões sobre inclusão, respeito às diferenças e valorização da arte acessível para todos os públicos.

 

A diretora e professora da companhia, Cecília Marcondes, destacou que a proposta do grupo vai além da inclusão no palco. Segundo ela, pensar em acessibilidade significa garantir que pessoas com deficiência visual e auditiva possam participar da experiência teatral de forma completa. Cecília ainda ressaltou que o teatro inclusivo ajuda a romper preconceitos e capacitismos ainda presentes na sociedade e no próprio meio artístico.

 

Na entrevista ela fala dos desafios enfrentados por projetos culturais inclusivos, como a falta de apoio financeiro, a pouca valorização da acessibilidade e as barreiras estruturais existentes nos espaços culturais.


Cecília Marcondes falou ao público no encerramento do espetáculo em Limeira (Foto: Manuella Bravo)
Cecília Marcondes falou ao público no encerramento do espetáculo em Limeira (Foto: Manuella Bravo)

 

 

A proposta do evento destaca a inclusão, com sessões em libras e audiodescrição. Qual a importância de pensar a acessibilidade como parte essencial da experiência teatral, e não apenas como um complemento? A proposta de colocar áudio, descrição e libras em todas as nossas apresentações do Ser Diferente está dentro dessa questão da inclusão social através da arte, que a gente já faz desde 2018. Então, nós valorizamos não somente a arte e a inclusão em cima do palco, nós valorizamos a inclusão através da arte também nessa questão das pessoas que estão indo assistir os nossos espetáculos. Nós colocamos libras e áudio descrição é justamente para valorizar as pessoas, o público que tem essa questão da deficiência visual, da deficiência auditiva. Nós pensamos nessas pessoas, para que elas estejam incluídas nesse nosso espetáculo, para que elas sejam inseridas dentro desse espetáculo e nós sempre colocamos. Não são todas as peças que pode estar levando essa questão da audiodescrição, do libras, porque é um serviço um pouco mais caro e então a gente valoriza essa questão da inclusão social para outras pessoas, não somente em cima do palco e graças ao nosso patrocinador, que é a empresa Mali, que com ela a gente consegue dar mais visibilidade nessa parte de inclusão social. 

 

A companhia leva no próprio nome a valorização das diferenças. De que forma a trajetória da Cia Inclusiva Ser Diferente impacta o público e ajuda a ampliar o olhar sobre inclusão na arte e na sociedade?  O nome Cia Ser Diferente é justamente para mostrar para a sociedade que nós, todas as pessoas nós somos diferentes, nenhum indivíduo é igual ao outro e o ser diferente ele traz um impacto perante a sociedade mostrando a valorização da pessoa com deficiência. Nós colocamos essas pessoas com deficiência na frente mesmo para ser o protagonista para fazer o protagonismo e mostrar que nós podemos viver com as diferenças e que não são dificuldades que cada um tem uma condição diferente e que essa condição a gente pode se superar a gente pode estar trabalhando junto com outras pessoas convivendo em sociedade. É isso que a companhia Ser Diferente traz e a gente leva através da arte essa inclusão para que a sociedade não tenha mais esse preconceito de achar que porque o meu filho é autista ele não pode estar em cima do palco. Meu filho tem síndrome de Down, minha filha tem síndrome de Down e ela não fala então não pode fazer teatro. Não, isso não existe. O teatro é uma forma de se expressar sem fala nenhuma e vocês vão ver né nós conseguimos transmitir isso em cima do palco. Nossa personagem principal é a Ana Luísa, nossa aluna, ela tem síndrome de Down e também tem o autismo. Ela tem uma dificuldade na questão da linguagem então vocês vão ver como é lindo o expressar dela. Ela realmente está falando não só com a fala. Ser diferente é justamente tirar essa barreira do preconceito de que as pessoas são  diferentes e que cada um tem que saber conviver com essa diferença e respeitar.

 

Um Sorriso para o Mundo Não Acabar mistura elementos de musical, poesia, humor e folclore brasileiro. Como surgiu a ideia de unir essas linguagens para contar essa história? Em todas as nossas montagens tentamos trazer a brasilidade. A gente acaba juntando essas brasilidades que nós temos para mostrar o quanto bonito o nosso país é. Então, trazendo o folclore para as crianças, para mostrar essa questão da inclusão, porque a gente começa desde pequeno, então trazendo essas figuras folclóricas, essa questão do meio ambiente que hoje está muito em alta por conta do aquecimento global, do que está acontecendo com o nosso mundo, que não é só aqui, mas é no mundo, essa questão do meio ambiente, para a preservação, então nós trazemos não só a inclusão social, mas uma reflexão para mostrar através de poesia, através de um mundo lúdico para as crianças, para os adolescentes e até para os pais, para que os pais entendam também de uma forma mais lúdica, mais engraçada, para estar se falando sobre a questão da inclusão, a questão da diversidade, a questão da preservação do meio ambiente, essa questão do folclore também, para que as crianças consigam entender essas formas de pensar e de estudar mesmo sobre o assunto. 

 

Elenco da Cia Inclusiva de Teatro Ser Diferente nos agradecimentos do espetáculo Um Sorriso para o Mundo Não Acabar  (Foto: Manuella Bravo)
Elenco da Cia Inclusiva de Teatro Ser Diferente nos agradecimentos do espetáculo Um Sorriso para o Mundo Não Acabar (Foto: Manuella Bravo)

O que significa ‘teatro inclusivo’ dentro do trabalho de vocês? Para nós, teatro inclusivo significa construir um espaço onde todas as pessoas possam participar artisticamente, independentemente de deficiência, condição física, intelectual, sensorial ou social. A inclusão não acontece apenas no elenco, mas na forma como criamos, ensaiamos e apresentamos os espetáculos, valorizando as potencialidades individuais e respeitando os diferentes tempos e formas de expressão.

 

Como é o processo de criação de um espetáculo inclusivo? O processo é sempre coletivo e colaborativo. Partimos das experiências, emoções e vivências dos participantes para desenvolver cenas, personagens e narrativas. Adaptamos exercícios, linguagem e dinâmica de ensaio conforme as necessidades do grupo, para que todos consigam participar de maneira ativa e criativa.

 

Existe alguma metodologia específica que vocês utilizam nos ensaios? Trabalhamos com uma metodologia minha (Cecília Marcondes) baseada na escuta, no acolhimento e na adaptação pedagógica. Utilizamos jogos teatrais, expressão corporal, improvisação e exercícios de confiança, sempre respeitando os limites e potencialidades de cada participante. O mais importante é criar um ambiente seguro, criativo e acessível.

 

Quais são os principais desafios de trabalhar com teatro inclusivo no Brasil hoje? Os maiores desafios ainda são a falta de acessibilidade, o preconceito estrutural e a pouca valorização de projetos inclusivos. Muitas vezes faltam espaços adaptados, recursos financeiros e oportunidades para que artistas com deficiência tenham visibilidade e continuidade profissional.

 

Já enfrentaram preconceito ou resistência do público ou do meio artístico? Sim. Ainda existe uma visão limitada sobre a capacidade artística das pessoas com deficiência. Em alguns momentos percebemos resistência ou surpresa do público e até do próprio meio cultural. Mas justamente por isso o trabalho é tão importante: ele transforma percepções e quebra estereótipos.

 

Vocês percebem mudança de percepção sobre inclusão após as apresentações? Com certeza. Muitas pessoas saem emocionadas e com uma visão diferente sobre inclusão e capacidade artística. O teatro tem esse poder de aproximar realidades e provocar reflexão de forma humana e sensível.


Cecília Marcondes falou, no encerramento do espetáculo, sobre a continuidade e o apoio à arte inclusiva

 

O que ainda precisa melhorar para que o teatro inclusivo seja mais valorizado? É necessário ampliar políticas públicas, acessibilidade nos espaços culturais, formação profissional e oportunidades para artistas com deficiência e valorização das Cia melhores. Também precisamos de mais representatividade e visibilidade na mídia e nos grandes projetos culturais.

 

O que te motivou pessoalmente a trabalhar com teatro inclusivo? Sou uma pessoa disléxica e sou formada em teatro foi a arte que me transformou e nós acreditamos profundamente no poder transformador da arte. Trabalhar com inclusão é entender que o teatro pertence a todos e que cada pessoa tem uma forma única e valiosa de se expressar. Ver o crescimento artístico e humano dos participantes é uma motivação diária.

 

O mercado artístico está preparado para a diversidade ou ainda é excludente? O mercado avançou em alguns aspectos, mas ainda é bastante excludente. Muitas oportunidades continuam limitadas e a diversidade nem sempre é tratada de forma verdadeira e contínua. Ainda precisamos evoluir muito para que a inclusão deixe de ser apenas discurso e se torne prática efetiva.

 

Orientação e edição: Adauto Molck

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