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Esporte paralímpico em Campinas impacta vidas e amplia inclusão

  • 28 de mai.
  • 7 min de leitura

ENTREVISTA - Alexandre Cândido relembra trajetória no basquete adaptado e destaca a importância da atividade esportiva como ferramenta de superação

 

 

O esporte paralímpico em Campinas vem se consolidando como uma importante ferramenta de inclusão social, autonomia e transformação de vidas. O esporte adaptado tem criado oportunidades para que pessoas com deficiência desenvolvam autoestima, independência e participação ativa na sociedade. Na cidade, diferentes iniciativas esportivas e projetos sociais têm ampliado o acesso às modalidades paralímpicas, permitindo que crianças, jovens e adultos encontrem no esporte um espaço de pertencimento, convivência e superação.

 

Campinas possui uma rede ativa de projetos voltados ao paradesporto e à inclusão de pessoas com deficiência. Entre os principais polos estão a Associação Paraolímpica de Campinas (APC), reconhecida pelo trabalho de formação e treinamento de atletas em diferentes modalidades, o time de basquete em cadeira de rodas do Gadecamp e iniciativas acadêmicas desenvolvidas pela Unicamp, que há décadas atua em pesquisas e projetos ligados à educação física adaptada e inclusão esportiva. Esses espaços desempenham um papel no desenvolvimento de atletas e na democratização do acesso ao esporte adaptado na cidade.

 

Entre os personagens que ajudam a fortalecer o esporte paralímpico em Campinas está Alexandre Cândido, um dos fundadores do Gadecamp e referência no basquete em cadeira de rodas na cidade. Alexandre contraiu o vírus da poliomielite ainda na infância, condição que resultou em paralisia infantil, mas encontrou no esporte adaptado um caminho de inclusão, autonomia e transformação pessoal. Há mais de 32 anos ligado ao basquete paralímpico, ele acredita no esporte como uma ferramenta capaz de integrar pessoas, impulsionar oportunidades e transformar vidas dentro e fora das quadras.

 

Alexandre Cândido no treino do Gadecamp, projeto de inclusão e transformação social em Campinas (Foto: Gabriela de Brito)
Alexandre Cândido no treino do Gadecamp, projeto de inclusão e transformação social em Campinas (Foto: Gabriela de Brito)

Como foi sua infância convivendo com a deficiência?

Minha infância foi marcada principalmente pela forma como minha família decidiu me educar. Eu tive paralisia infantil ainda muito pequeno, com apenas um ano de idade. Eu andava normalmente até então, mas lembro da história que sempre contamos em casa: fui dormir andando e, justamente no dia do meu aniversário, acordei sem conseguir andar mais. Mesmo assim, meus pais nunca permitiram que eu crescesse me sentindo incapaz. Éramos sete irmãos e minha mãe sempre fazia questão de me tratar da mesma maneira que tratava os outros. Ela dizia que aquilo que eu alcançasse sozinho eu precisava aprender a resolver sem ajuda. Só receberia apoio naquilo que realmente não conseguisse fazer. Essa educação foi essencial para construir minha independência, minha força mental e minha personalidade. Desde cedo aprendi a me adaptar às situações e entender que eu poderia viver normalmente, mesmo com limitações físicas. Hoje percebo que essa criação fez toda a diferença para eu chegar aonde cheguei.

 

Quando o esporte entrou na sua vida e por que ele foi tão importante para você?

O esporte sempre esteve presente na minha vida de alguma forma. Eu era uma criança muito ativa, competitiva e gostava de participar de tudo. No colégio jogava futebol, vôlei e qualquer brincadeira esportiva que aparecesse. Só que, ao mesmo tempo, eu percebia que existia uma limitação física que me impedia de competir de igual para igual com as outras pessoas. Mesmo gostando muito do ambiente esportivo, eu sentia que faltava um espaço onde eu realmente pudesse desenvolver meu potencial. Isso mudou completamente quando conheci o projeto de educação física adaptada da FEF, em 1991. Naquele momento, foi como descobrir um novo mundo. Quando me sentei na cadeira esportiva pela primeira vez, tive a sensação de finalmente encontrar algo que fazia sentido para mim. O esporte deixou de ser apenas uma atividade e passou a ser um propósito de vida. A partir dali comecei a enxergar possibilidades que antes pareciam distantes, tanto no lado pessoal quanto profissional.

 

Qual foi sua reação ao conhecer o esporte adaptado pela primeira vez?

Foi uma emoção muito forte e difícil até de explicar. Eu lembro perfeitamente do impacto que tive ao entrar naquele ambiente e ver outras pessoas com deficiência praticando esporte, treinando, competindo e acreditando no próprio potencial. Naquele instante percebi que eu também poderia construir uma trajetória ali dentro. Foi realmente amor à primeira vista. Até hoje fico emocionado lembrando desse momento porque ele mudou completamente o rumo da minha vida. Eu saí de lá decidido de que aquilo seria parte da minha história. O esporte me mostrou uma realidade diferente daquela que muitas vezes a sociedade apresenta para a pessoa com deficiência. Em vez de limitação, eu comecei a enxergar capacidade, independência e oportunidade. Foi um divisor de águas.

 

Quais foram as maiores transformações que o esporte trouxe para sua vida?

O esporte transformou absolutamente tudo na minha vida. Antes dele, eu já tentava ser independente, mas foi dentro do esporte que realmente desenvolvi confiança, autoestima e disciplina. O ambiente esportivo me ensinou a superar dificuldades diariamente, a lidar com derrotas, pressão e desafios físicos e emocionais. Além disso, o esporte me deu oportunidades que talvez eu nunca tivesse tido de outra maneira. Conheci pessoas, viajei, participei de competições importantes e vivi experiências que marcaram minha trajetória. Também aprendi muito sobre responsabilidade e comprometimento, porque ser atleta exige dedicação constante. Muitas vezes precisei abrir mão de momentos pessoais, descanso e até lazer para manter os treinamentos e competições. Mas tudo isso valeu a pena porque o esporte me transformou não só como atleta, mas principalmente como ser humano.

 

Quais conquistas mais marcaram sua carreira como para-atleta?

Tenho muito orgulho da minha trajetória porque ela foi construída ao longo de 34 anos com muito esforço e dedicação. Conquistei títulos paulistas, títulos brasileiros e tive experiências muito importantes representando equipes e competindo em alto nível. Também fui convocado para a seleção paulista e tive uma pré-convocação para a seleção brasileira, o que foi algo extremamente significativo para mim. Claro que existem momentos difíceis dentro da carreira esportiva, como quando aconteceu a troca de treinador e eu acabei não sendo levado para a seleção brasileira definitiva. Mas faz parte do esporte e aprendi muito com isso também. Hoje olho para tudo que vivi e vejo que cada competição, cada treino e cada conquista tiveram um papel importante na construção da minha história.

 

Quais são os principais desafios enfrentados pelos atletas paralímpicos atualmente?

Ainda existe uma falta muito grande de visibilidade para o esporte paralímpico. Muitas pessoas só acompanham as modalidades durante as Paralimpíadas e, mesmo assim, ainda existe pouco espaço na mídia comparado ao esporte convencional. Isso impacta diretamente em patrocínio, investimento e apoio financeiro para os atletas. Outro problema é a estrutura. Nem sempre os espaços esportivos possuem acessibilidade adequada ou equipamentos suficientes para atender os atletas da melhor forma possível. Além disso, muitos atletas precisam conciliar treinos com trabalho e outras responsabilidades porque o esporte sozinho nem sempre consegue garantir estabilidade financeira. Existe muito talento, muita dedicação e histórias incríveis dentro do esporte paralímpico, mas ainda falta reconhecimento proporcional ao esforço desses atletas.


Alexandre Cândido acumula mais de 32 anos de trajetória no esporte adaptado (Foto: Gabriela de Brito)
Alexandre Cândido acumula mais de 32 anos de trajetória no esporte adaptado (Foto: Gabriela de Brito)

 

Como você vê o desenvolvimento do esporte paralímpico em Campinas?

Campinas possui iniciativas importantes e pessoas muito comprometidas com o esporte adaptado. Existem projetos sociais, equipes e profissionais que fazem um trabalho muito sério de inclusão e desenvolvimento esportivo. Isso é extremamente positivo porque permite que muitas pessoas tenham acesso ao esporte pela primeira vez. Porém, ainda há muito espaço para crescimento. O esporte paralímpico precisa de mais investimento, mais divulgação e mais apoio tanto do poder público quanto da iniciativa privada. Muitas vezes os projetos sobrevivem graças ao esforço dos próprios profissionais e atletas envolvidos. Se houvesse mais incentivo, Campinas poderia revelar ainda mais talentos e se tornar uma referência ainda maior na área.

 

Qual é o papel dos projetos sociais no esporte adaptado?

Os projetos sociais são fundamentais porque representam a porta de entrada para muitos atletas. Muita gente conhece o esporte adaptado através de projetos de inclusão ou até durante processos de reabilitação física. Esses espaços ajudam não apenas no desenvolvimento esportivo, mas também na socialização e no fortalecimento emocional das pessoas com deficiência. O esporte acaba criando um ambiente onde elas se sentem acolhidas, valorizadas e capazes. Muitas vezes uma pessoa chega insegura, sem acreditar no próprio potencial, e aos poucos começa a ganhar confiança através do esporte. Isso muda vidas de verdade.

 

Como o esporte ajuda na inclusão social das pessoas com deficiência?

O esporte tem um impacto enorme na inclusão porque ele quebra preconceitos e mostra capacidade. Quando uma pessoa vê um atleta paralímpico treinando, competindo e conquistando resultados, ela começa a enxergar além da deficiência. O esporte mostra que existem possibilidades, talentos e histórias de superação. Além disso, ele fortalece muito a autoestima das pessoas com deficiência. Você passa a se sentir pertencente, valorizado e reconhecido dentro de um grupo. Isso faz diferença não só no esporte, mas em todas as áreas da vida. O esporte abre portas, aproxima pessoas e ajuda a construir uma sociedade mais inclusiva.

 

O que ainda precisa melhorar para fortalecer o esporte paralímpico?

Acredito que o principal ponto seja a valorização. Precisamos de mais investimento, mais incentivo desde a base e mais espaço para divulgação das modalidades paralímpicas. Também é importante ampliar a acessibilidade nos espaços esportivos e garantir melhores condições de treinamento para os atletas. Muitas vezes existe talento, mas faltam oportunidades para que ele se desenvolva. Outro ponto fundamental é a conscientização da sociedade. Quanto mais as pessoas conhecerem o esporte paralímpico e entenderem sua importância, maior será o apoio e o reconhecimento para os atletas.

 

Que conselho você daria para pessoas com deficiência que desejam começar no esporte?

Eu diria para nunca terem medo de tentar. Muitas vezes a pessoa acha que não é capaz ou acredita que o esporte não é para ela, mas isso não é verdade. O esporte pode transformar completamente a vida de alguém, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Vale a pena conhecer modalidades, participar de projetos e se permitir viver essa experiência. Independentemente de competir profissionalmente ou não, o esporte sempre traz aprendizado, autoestima e qualidade de vida. O mais importante é acreditar no próprio potencial e entender que a deficiência não define os limites dos sonhos de ninguém.

 

Em algum momento você imaginou que o esporte teria um impacto tão grande na sua vida?

Sinceramente, no começo eu só queria praticar um esporte e me sentir parte daquele ambiente. Nunca imaginei que aquilo fosse mudar tanto a minha vida. Com o tempo, o esporte deixou de ser apenas competição e passou a fazer parte da minha identidade. Foi através dele que aprendi sobre disciplina, superação e até sobre mim mesmo. O esporte me levou para lugares que eu nunca pensei conhecer, me fez viver experiências únicas e me apresentou pessoas que marcaram minha trajetória. Quando olho para trás, vejo que cada dificuldade valeu a pena, porque tudo contribuiu para formar a pessoa que sou hoje.

 

Orientação e edição: Adauto Molck

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