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Tênis de mesa ainda busca visibilidade para conquistar atletas

  • 28 de mai.
  • 9 min de leitura

Atualizado: 9 de jun.

ENTREVISTA - Gustavo Taliani de Souza avalia a importância do esporte para a inclusão, os benefícios para a saúde e os desafios futuros desta modalidade no país

 

 

Desde os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021, o tênis de mesa começou a ganhar mais popularidade e simpatizantes com o esporte. Uma parcela significativa dessa notoriedade veio dos resultados do atleta profissional Hugo Calderano, que se tornou o primeiro brasileiro a alcançar as quartas de final da competição. O crescimento de Calderano foi exponencial, e três anos depois o mesatenista terminou as Olimpíadas de Paris na 4ª colocação, conquistando o melhor resultado da história do Brasil no tênis de mesa.


Em Campinas, uma ideia surgiu em paralelo a esse cenário. O educador físico e ex-atleta de tênis de mesa de 34 anos, Gustavo Taliani de Souza, entendia o esporte como uma prática para além do aspecto competitivo e viu uma oportunidade ao abrir uma academia especializada na modalidade no final de 2021. A academia Power Pong abrange diferentes públicos de faixa-etárias variadas, desde idosos e atletas paralímpicos até crianças. A proposta é ampliar o acesso à modalidade, que pode ser praticada tanto de forma recreativa, quanto competitiva.

 

Embora o esporte viva um período de maior visibilidade impulsionado pelos resultados de Hugo Calderano no cenário internacional, Taliani acompanha essa evolução há mais de duas décadas. Praticante do tênis de mesa em aulas oferecidas pela prefeitura de Paulínia desde os dez anos, o ex-atleta se destacou nas competições nacionais, treinou na seleção brasileira infantil e se consolidou como uma das referências da modalidade, com cinco títulos brasileiros, cinco Copas Brasil e sete campeonatos paulistas.

 

Atualmente, está entre os personagens que ajudam a fortalecer a prática do tênis de mesa em Campinas e está expandindo a iniciativa para outras cidades da região, como Valinhos, Paulínia, Jundiaí, Indaiatuba, Hortolândia e Americana. Segundo Taliani, o objetivo foi criar um espaço que os adeptos pratiquem o tênis de mesa por diversão, desenvolvimento pessoal, busca por uma atividade física semanal, participação em competições ou aperfeiçoamento de habilidades no esporte, independentemente da idade, do nível técnico ou mesmo das limitações físicas.


Gustavo Taliani acumula mais de 180 títulos em 20 anos no tênis de mesa (Foto: Thiago Bortoletto)
Gustavo Taliani acumula mais de 180 títulos em 20 anos no tênis de mesa (Foto: Thiago Bortoletto)

 


O tênis de mesa brasileiro vive um momento de maior visibilidade graças aos resultados de Hugo Calderano. Na sua avaliação, quais são os principais desafios para o crescimento da modalidade no país e para a formação de novos atletas capazes de competir em alto nível internacional?

Eu espero que o investimento no Brasil seja diferente e que o esporte cresça muito a partir de agora. É um esporte que já vem crescendo e tem muitos praticantes, mas que ainda não é levado a sério no Brasil. Eu acho que o país tem muito a melhorar. Precisamos mostrar que o esporte tem um potencial de se tornar uma fonte de investimento, com patrocínios grandes e incentivo governamental. Por isso, a nossa maior chance ainda é o Hugo Calderano. O principal problema é a falta de formação de atletas que atuem em um nível acima da média, e dependemos de talentos que surgem ocasionalmente, e por causa disso que existe uma lacuna muito grande ainda do nosso primeiro do Brasil para o nosso segundo. É um nível muito distante, então se a gente for conseguir alguma medalha na próxima Olimpíadas, vai ter que ser com o Calderano de novo, porque os outros atletas brasileiros ainda estão um pouco atrasados. O Hugo Calderano realmente é fora da curva. Agora é aguardar para ver o que o Brasil vai fazer para conseguir ter essa renovação de atletas, colocando os mais jovens para jogar, investindo neles para que consigam fazer o que o Hugo está fazendo nas competições mundo afora.

 

O atleta Hugo Calderano, teve ótima performance nas Olimpíadas e na Copa do Mundo de Tênis de mesa, sendo campeão em 2025 e 3° lugar agora em 2026. Isso reflete na popularidade, visibilidade do esporte e até investimentos nas categorias, tanto de base, quanto profissional? O ‘efeito Calderano’ chegou a influenciar na procura pela academia?

Eu não imaginaria ver um atleta brasileiro sendo campeão mundial ou pegando uma medalha num campeonato mundial. O Hugo Calderano fez o que nenhum atleta das Américas já fez. O que ele joga é absurdo. Tanto que mesmo o Hugo Calderano já sendo o Calderano, ninguém teria colocado mão na fogueira que o Calderano ia ser o campeão. E para quem joga tênis de mesa, para quem é do meio, isso foi muito legal. Ele se mudou para a Europa muito novo, para poder treinar lá, porque ele sempre foi um menino com um talento fora da curva. Hoje é conhecido mundialmente e por isso ganhou visibilidade aqui no Brasil. O tênis de mesa deve muito ao Hugo Calderano, porque antes as pessoas falavam do atleta Hoyama, hoje as pessoas falam de um brasileiro como o Hugo. Isso pelo fato que o Calderano ainda não tinha o reconhecimento e peso de nome que ele tem hoje. Mas, aonde nós vamos e conversamos sobre tênis de mesa, é nítido que as pessoas adquiriram mais conhecimento sobre. Inclusive está sempre na mídia e o tênis de mesa conseguiu esse espaço na televisão. É muito importante a pessoa ter visto uma raquete na loja do um real e ter brincado em casa, até a pessoa conhecer o Hugo Calderano. Então eu acho que é mais uma sementinha, que quem sabe um dia isso possa trazer mais gente para o esporte. As crianças da academia até começaram a ficar mais empolgadas para treinar. Porém, a procura por aulas de tênis de mesa, não teve um  impacto muito grande, até porque esse “Efeito Calderano” durou pouco. Agora esperamos que o Brasil faça algo de diferente para que a modalidade consiga ter um Ibope maior e se tornar uma potência a nível mundial.

 

Com a ascensão das plataformas de streaming, a CazéTV, está transmitindo frequentemente partidas de tênis de mesa profissional no YouTube. A facilidade de ter contato com o tênis de mesa contribuiu para o cenário atual de maior visibilidade e transmissão do esporte?

Com certeza, inclusive teve um jogo do Hugo Calderano que aconteceu acho no ano passado da Copa do Mundo que foi recorde de visibilidade do canal da CazéTV. Para mim que fui atleta e acompanho o esporte é muito legal, porque era um esporte que ninguém conhecia, mas ainda continuava sendo um dos mais praticados do Brasil e do mundo. Canais como a CazéTV servem como uma vitrine muito grande, e mostram o potencial midiático do tênis de mesa. Por isso, tem atingido números muito legais, e com certeza é incrível para quem ama o tênis de mesa.

 

Será que o público um dia poderá ver uma partida entre Hugo Calderano e Gustavo Taliani? Como você se enxerga no cenário do tênis de mesa atualmente?

Está cada vez mais difícil isso aí, viu? Hoje eu não estou mais no cenário, mas se eu fosse competir ainda estaria na principal categoria do país, no caso o Absoluto A. Caso o Calderano viesse jogar no Brasil, a gente jogaria na mesma categoria. Porém, pode ter certeza, se a gente jogasse seria um amasso para ele, ele realmente é fora da curva, um jogador espetacular. Eu cada vez mais me enquadro no cenário de formar profissionais e promover qualidade de vida por meio dos meus empreendimentos. E penso que nós temos importâncias até iguais nesse sentido, o Hugo Calderano pela visibilidade do esporte, e a minha pelo lado de gerar trabalhos, tirar pessoas da rua e orientar as crianças. Então, a gente jogar é uma realidade que ainda está um pouco distante.

 

A sua academia de tênis de mesa é mais focada na formação de atletas ou em um público diverso que preza mais pelo lazer do que competitivo?

A academia é 80% qualidade de vida. Nós temos relatos de pessoas aqui que emagreceram 19 quilos, pessoas que não sentem mais o efeito da pressão alta, alunos autistas que evoluíram muito, pessoas que têm Parkinson apresentando uma evolução grande. Nós temos atletas que são campeões brasileiros, campeões paulistas e lideram o ranking dos eventos regionais. Então nós não somos apenas uma academia para o bem-estar, não somos apenas uma academia de rendimento. Costumo dizer que a academia é mais focada na qualidade de vida do que puxada para as competições.

 

A partir da escolha de seguir pelo caminho acadêmico, como você identificou a vocação para treinar esses novos atletas no cenário e essa possibilidade de ser um esporte prazeroso?

Eu comecei a fazer educação física, mas sem saber se era isso que eu realmente queria. A decepção tomou conta na época, porque é um esporte que não tinha tanta visibilidade. Os recursos eram poucos e viver realmente do tênis de mesa era para pessoas específicas. Na metade da minha graduação foi o momento que eu comecei a dar treinos de tênis de mesa. Ali eu só tinha experienciado o tênis de mesa com maior intensidade, quase como um profissional de alto rendimento. E nesse momento eu entendi que as pessoas poderiam ter o tênis de mesa como qualidade de vida, e não necessariamente como um atleta profissional.

 

Como surgiu a oportunidade de abrir uma academia de tênis de mesa em Campinas?

Depois de formado, me tornei técnico e tive a chance de treinar três atletas da Seleção Brasileira Paralímpica. Porém, a pandemia chegou e acabei sendo mandado embora de todos os lugares que eu trabalhava, e por uma questão de sobrevivência, e claro um sonho que despertou em mim, a academia própria surgiu. Isso aconteceu em 2021, foi um ponto crucial na minha carreira, e era a minha última aposta. Eu tinha dois mil reais na conta e cinco mesas de tênis de mesa. Minha ideia era tentar fazer algo diferente das outras, no aspecto de marketing e de treinamento de professores. E em menos de um ano e dois meses já não cabia mais aluno e expandiu para oito unidades na Região Metropolitana de Campinas.


Gustavo Taliani se destacou nas competições nacionais, treinou na seleção brasileira infantil (Foto: Thiago Bortoletto)
Gustavo Taliani se destacou nas competições nacionais, treinou na seleção brasileira infantil (Foto: Thiago Bortoletto)

 

O público-alvo do projeto é focado nos adultos ou nas crianças e adolescentes? O contato da juventude na escola com a prática do esporte gera uma procura maior por academias?

Na academia nós recebemos todos os públicos, desde crianças a partir dos cinco anos, até a idade que ela conseguir jogar. Há alunos de até 85 anos. É um esporte que não precisa ter idade para jogar. Então a criança consegue jogar com o adulto, que consegue jogar com o idoso. Pensando na juventude, é sempre uma sementinha. Eu acho que tudo é muito importante que se encontre, por exemplo, uma raquete em uma loja de um real, mesmo sendo com uma material bem simples para a pessoa poder brincar em casa. Isso vale para qualquer lugar, como na própria escola. No primeiro contato, não gera essa procura logo de cara, já que as pessoas não sabem que existem aulas de tênis de mesa com academia própria. Mas quando elas descobrem, logo já se relacionam com um dia em que jogou ping pong e foi o campeão do torneio da escola. A importância é a criação dessa memória afetiva, que incentiva a fazer procurar por mais coisas relacionadas ao esporte.

 

Levando em consideração a participação desse público infantil dentro do esporte, o tênis de mesa é popularmente conhecido como ping pong entre os mais jovens. Existe alguma diferença na prática entre os dois para além da nomenclatura? Isso influenciou no momento de nomear a academia?

Olha, quando eu era pequeno eu até ficava bravo quando falavam que eu jogava ping pong, mas eu fui amadurecendo e entendendo melhor. O ping pong a gente costuma dizer que ele é como se fosse a pelada no futebol. Imagina você jogando lá na rua da sua casa, colocando o chinelo de gol com todo aquele improviso. O tênis de mesa seria o futebol que a gente vê na televisão, com regras oficiais, arbitragem e tempo estabelecido. A ideia de relacionar o ping pong ao tênis de mesa me agrada muito, tanto que o nome da academia é exatamente para que as pessoas possam se associar com algo que elas já jogaram um dia. Se eu coloco lá “Centro de treinamento de tênis de mesa”, as pessoas já iriam imaginar um monte de asiáticos jogando super rápido, por ser muito tradicional na Ásia.

 

Pensando no Gustavo Taliani como mesatenista, qual foi o momento mais difícil na sua carreira como atleta e qual fator foi determinante para não seguir atuando profissionalmente no esporte e optar por se especializar nos treinamentos?

Foi depois de nacionalmente eu conseguir jogar e ganhar praticamente todos os torneios de nível nacional. Apesar de ser pentacampeão brasileiro, pentacampeão da Copa Brasil e heptacampeão paulista, aos 17 anos eu fiz um intercâmbio na França para aprimorar minhas habilidades, porém quando se chega nessa idade precisamos escolher se vamos ser profissionais no esporte ou se vamos fazer faculdade para poder arrumar um emprego e construir nossa família. Assim, um pouco decepcionado com o cenário no Brasil, primeiramente não me interessei por algo relacionado ao esporte e iniciei na faculdade de direito. Não aguentei um ano, realmente não era minha área. Os recursos eram poucos e viver do tênis de mesa, eram pessoas específicas que conseguiam. Isso porque temos uma ajuda quando chegamos ali na idade dos 18 e 19 anos e consegue uma bolsa do governo, o bolsa atleta. Porém, dessa faixa etária em diante você só tem se você for da seleção principal. Por conta disso, resolvi focar na graduação e tive esse interesse por treinar outros atletas e acompanhar pessoas que estavam começando no esporte.



Orientação e edição: Adauto Molck

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